Jorge Varanda, director geral do Centro de Medicina e Reabilitação do Sul
“Já poderíamos ter este tipo de centros há 30 anos”
Situado em São Brás de Alportel, o Centro de Medicina e Reabilitação do Sul recebeu esta semana o primeiro paciente. O director-geral, Jorge Varanda, garante que será impressa uma nova dinâmica à gestão das camas, através de um treino intensivo dos doentes
Na sua opinião, a reabilitação foi esquecida pelos sucessivos governos em Portugal?
Jorge Varanda (JV) – Sim. Há medida que se avança na construção destes centros, aprendemos como poderemos fazer as coisas. Faltou a sua estruturação. Depois de Alcoitão, só se realizou o Centro da Tocha. Desde os anos 60 que existiam instrumentos de planeamento. Alguns hospitais foram criando os seus serviços e colmatando as falhas. Ninguém viu os custos sociais e económicos de ter pessoas que poderiam ter atingido um nível de recuperação funcional mais elevado e que não o atingiram. Se se tivesse seguido um modelo de documento que já vi há alguns anos, já poderíamos ter este tipo de centros há uns 30 anos.
Iniciaram a vossa actividade a 6 de Abril. Como está a correr esta fase inicial?
JV – Este é um centro especial, uma vez que os pacientes não são enviados a um ritmo de um hospital de agudos, mas a um ritmo de um centro especializado em reabilitação. Felizmente, não temos muitos doentes e os casos indicados para aqui são os mais graves. No início desta semana entrou o primeiro doente, que foi encaminhado pelo Centro Hospitalar do Baixo Alentejo.
Este foi um processo iniciado em 1999. Foi difícil chegar até este ponto?
JV – Houve muito esforço e muitas pessoas a trabalhar até chegar a este ponto, quer do lado do Ministério, quer do lado do Grupo Português de Saúde. Este era um «sonho» do Algarve e conseguiu-se levar a bom porto este projecto inovador. No mês do Julho estaremos a meio do preenchimento das camas, sendo que abriremos a segunda parte do internamento. Nessa altura, já estaremos numa velocidade cruzeiro.
Qual a importância deste centro na zona Sul do País?
JV – Até há pouco tempo existia apenas um centro desta natureza no País, em Alcoitão, como centro especializado para este tipo de tratamento. Seguiu-se o Centro da Tocha, para a região Centro, agora o de S. Brás de Alportel para o Baixo Alentejo e Algarve, e prevê-se no futuro um centro para a Região Norte, que é a única zona que falta cobrir. Esta evolução constitui a efectivação, ao nível dos centros especializados, da Rede de Medicina de Reabilitação. São Brás foi o local escolhido tendo em conta a existência das instalações do antigo Sanatório Vasconcelos Porto, o qual deixou uma marca histórica indelével na região, pela proximidade de Faro e futuro acesso à A22. De acordo com a Direcção-geral de Saúde, a existência de camas de internamento especializadas em cuidados intensos de reabilitação é imprescindível. O Centro de Reabilitação de S. Brás (CMRS) é uma unidade hospitalar especializada, de 54 camas de internamento, hospital de dia e ambulatório, gerida em regime de parceria público-privada pelo Grupo Português de Saúde – o segundo maior grupo privado do País – através de um contrato com o Estado português.
Quais os objectivos do CMRS?
JV – A missão do centro é prestar, na sua área de influência, cuidados diferenciados de reabilitação a pessoas portadoras de grande limitação funcional em regime de internamento com carácter intensivo, cumprindo padrões de excelência com vista à maximização do potencial de reabilitação de cada doente e ao pleno exercício da cidadania. O centro tem funções apropriadas de ensino e de investigação. A curto prazo pretendemos dar resposta completa à procura pública do Serviço Nacional de Saúde e aos 15 por cento que nos é atribuído para a rede privada. Um segundo objectivo é a inovação e melhoria contínua dos processos de trabalho e da tecnologia.
Que tipos de tratamentos vão efectuar?
JV – O novo CMRS destina- se prioritariamente ao tratamento de doentes em regime de internamento em três grandes áreas prioritárias: lesões medulares, traumatismos crânio-encefálicos e acidentes vasculares cerebrais. Há outro tipo de situações, nomeadamente na área neurológica, que só serão tratadas se houver lugar para isso. A organização e gestão do centro vai focar toda a sua actividade nas pessoas que vai servir e nas suas necessidades específicas, proporcionando as melhores condições para desenvolver o seu potencial de reabilitação, com vista à obtenção do maior grau de autonomia, independência e funcionalidade. Cada pessoa tratada será acompanhada desde a sua admissão à transição para o domicílio, vida familiar e profissional, fazendo o seguimento posterior necessário à situação clínica de cada um.
Esse tratamento será efectuado de uma forma intensiva, tal como acontece na Tocha?
JV – O regime de tratamento será intensivo, baseado em equipas interdisciplinares, com disponibilidade terapêutica das 9 às 20 horas em ginásio e com serviços médicos e de enfermagem em permanência. A organização terapêutica inclui a fisioterapia, a hidroterapia, a terapia ocupacional, a terapia da fala e apoios especializados de neurofisiologia, urodinâmica, provas respiratória, imagiologia, psicologia e serviço social. Além dos médicos fisiatras, a equipa inclui um médico internista permanente e médicos especialistas consultores de urologia, psiquiatria, neurologia, ortopedia e outras especialidades que forem necessárias. O planeamento do centro não inclui nesta fase um sector pediátrico.
“É preciso muito treino para atingir resultados”
Na sua opinião, a capacidade instalada é suficiente para dar resposta a todos os casos existentes na região?
JV – Não posso dar-lhe uma resposta peremptória sobre isso, porque de acordo com um número de camas previsto para este centro há uma pequena diferença. Em termos de necessidade foram calculadas 80 camas, mas o centro vai dispor de 54 camas de internamento. Há alguns elementos novos que se prendem com a capacidade da nossa acção, uma vez que devemos ter em atenção a dinâmica que vamos colocar na gestão das camas e, também, porque através do contrato estamos obrigados a fazer um estudo da procura deste tipo de casos.
Que dinâmica pretende imprimir na gestão de camas?
JV – Esse é um aspecto que respeita à área clínica, mas o modelo consiste num treino intensivo dos doentes, para poder atingir o máximo de capacidade de reabilitação. Uma imagem que pode ser utilizada para perceber o que se vai fazer é o treino dos atletas de alta competição. É com muito treino que se chega aos resultados. Podemos chegar mais longe e mais cedo do que desejaríamos, podendo a capacidade das camas ser assim aumentada. Em média, um doente é pressuposto passar 90 dias em internamento.
Como se vai processar a articulação entre o público e o privado?
JV – Este é um centro público, embora seja gerido por uma entidade privada. O CMRS tem protocolos estabelecidos com o Hospital Distrital de Faro, Centro Hospitalar do Barlavento Algarvio e Centro Hospitalar do Baixo Alentejo, onde estão estabelecidas regras de referenciação de doentes para este centro. Essas regras estabelecem a forma como os doentes são encaminhados para este centro e as condições que têm de preencher.
Nesta fase inicial, quantos técnicos estão a trabalhar no CMRS?
JV – Neste momento, já temos os sectores da área administrativa a funcionar em pleno. Temos um quadro de 60 pessoas na fase inicial, mas mais tarde teremos 116 pessoas a trabalhar.
in: Algarve